Salvador não parou no tempo

Uma reflexão sobre memória, preservação e a convivência entre diferentes tempos arquitetônicos numa cidade que continua em transformação.

Quatro dias em uma cidade de quase 500 anos e uma percepção que ficou comigo: história e presente não precisam ocupar lugares diferentes.

Passei quatro dias em Salvador e, entre tantas coisas que poderia trazer dessa viagem — as cores, o mar, a comida, as igrejas, as pessoas, a música —, voltei pensando muito sobre a cidade em si.

Salvador é antiga. Muito antiga.

Fundada em 1549, está a pouco mais de duas décadas de completar 500 anos. Mas não foi exatamente a idade que me impressionou. Foi perceber como todos esses anos continuam visíveis sem fazer com que a cidade pareça ter parado no tempo.

Em Salvador, diferentes épocas acontecem ao mesmo tempo.

O antigo não parece necessariamente competir com o novo, e o novo não precisa apagar aquilo que veio antes.

As coisas simplesmente coexistem.

Uma história que continua sendo vivida

No Pelourinho, isso fica muito evidente.

São casarões, igrejas, largos e ruas que atravessaram séculos e continuam fazendo parte da vida da cidade.

Por trás de uma fachada histórica existe uma loja funcionando. Em outro casarão, um restaurante. Mais adiante, um museu, um comércio, uma instituição, alguém trabalhando.

Claro que existe ali uma dinâmica fortemente ligada ao turismo. Mas, mesmo assim, não tive a sensação de estar caminhando por um cenário montado para contar como Salvador era.

As pessoas vivem aquilo.

A história está nas fachadas e nas igrejas, mas também está no bar que abriu dentro de um casarão, na loja que funciona no térreo, na música que ocupa o largo e nas pessoas que atravessam aquelas ruas todos os dias.

Detalhe da ornamentação e das colunas de um palacete histórico em Salvador

A ornamentação de um palacete histórico permanece integrada à paisagem cotidiana da cidade.

Essa relação me chamou atenção também por uma experiência anterior.

Durante a faculdade, estudei em Laguna, aqui em Santa Catarina, uma cidade que possui um importante centro histórico tombado. Conviver com aquela realidade me mostrou um outro lado da preservação: o que acontece quando a população começa a enxergar o patrimônio mais como uma limitação do que como parte da própria cidade.

Quando a relação com um edifício histórico passa a ser resumida ao “não pode mexer nisso”, “não pode mudar aquilo”, “não pode fazer dessa forma”, cria-se um distanciamento. O prédio continua lá, mas a vida dentro dele pode desaparecer aos poucos.

Em Salvador, encontrei outra dinâmica.

Os edifícios antigos não estão apenas sendo preservados. Muitos continuam sendo ocupados, adaptados, usados e incorporados à rotina.

E existe uma diferença enorme entre preservar uma construção e manter uma construção viva.

Várias cidades dentro da mesma cidade

Saindo do centro histórico, essa mistura de tempos fica ainda mais interessante.

Salvador é uma cidade grande, diversa e cheia de contrastes. Ao atravessar seus bairros, aparecem construções antigas e novas, prédios modernos e contemporâneos, regiões mais ricas e mais pobres, diferentes escalas, usos e formas de ocupar a cidade.

Às vezes, tudo isso cabe dentro da mesma fotografia.

Foi exatamente o que aconteceu quando visitei o atual Museu de Arte Contemporânea da Bahia, o MAC.

O museu funciona no antigo Palacete do Comendador Bernardo Martins Catharino, inaugurado em 1912. É uma construção eclética extremamente ornamentada, cheia de detalhes — daquelas em que os olhos demoram um pouco para decidir para onde olhar primeiro.

Mas uma das imagens que mais gosto dessa visita não mostra o palacete isolado.

Mostra justamente o contrário.

Em primeiro plano aparecem suas colunas, ornamentos e relevos. Logo atrás, quase colado a ele no enquadramento, surge um edifício vertical construído muitas décadas depois.

São tempos diferentes ocupando a mesma fotografia — e a mesma cidade.

Palacete histórico de Salvador enquadrado com edifícios contemporâneos ao fundo

A cidade contemporânea cresce ao redor do património, sem que uma época precise apagar a outra.

As duas arquiteturas não tentam se parecer. Não pertencem à mesma época, não têm a mesma escala e nem falam a mesma linguagem.

E está tudo bem.

Uma não precisa desaparecer para que a outra exista.

O palacete permaneceu enquanto Salvador cresceu ao redor dele. E, ao mesmo tempo, ele próprio também mudou.

Construído originalmente como residência, atravessou diferentes usos ao longo de mais de um século, foi ocupado por instituições públicas, tornou-se espaço museológico, passou por adaptações e recebeu um anexo contemporâneo.

Hoje, uma construção de 1912 abriga um Museu de Arte Contemporânea.

Só isso já diz muita coisa.

Uma cidade não precisa ser um retrato de uma única época

Existe uma ideia de preservação que, às vezes, parece querer congelar a cidade em determinado momento da história.

Só que cidades não funcionam assim.

Pessoas mudam. Necessidades mudam. Edifícios ganham novos usos. Novas tecnologias aparecem. A maneira como vivemos também se transforma.

Preservar não precisa significar impedir essas mudanças.

Pode significar aprender a incorporá-las sem precisar começar tudo de novo a cada geração.

Porque, pensando bem, seria estranho esperar que uma cidade de quase 500 anos tivesse uma única linguagem arquitetônica. Salvador teve tempo suficiente para ser muitas cidades diferentes — e ainda está tendo.

É possível encontrar a cidade colonial, a eclética, a moderna e a contemporânea. Às vezes separadas por bairros ou ruas; outras vezes, separadas por poucos metros.

E acho bonito que seja assim.

Não encontrei uma Salvador tentando voltar para 1549.

Encontrei uma Salvador de 2026 que começou a ser construída em 1549.

Talvez essa seja a imagem que melhor ficou comigo depois da viagem: a de uma cidade que não precisou apagar todas as versões anteriores de si mesma para continuar existindo.

Arquitetura como memória viva

No fim, arquitetura também é isso.

Não são apenas os edifícios que projetamos ou preservamos, mas as histórias que vão se acumulando neles e ao redor deles enquanto a vida acontece.

Salvador continua construindo a sua.

E ainda dá para enxergar muitas das que vieram antes.